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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Do Mar

São do mar as palavras que chegam
com avisos de grandes estuários
são jangadas de água  que desaguam
na imensidão azul que se alastra

São do mar esses semblantes
já crestados pelo sal das vidas áridas
a cercar com as redes da esperança

as cidades solares de areia

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Meninos






                                                      

                                                                                 

Em algum lugar da memória esta lembrança ficou retida. Um cinturão de água cingia os sonhos dos meninos, que eram mínimos, mas traziam consigo a companhia do sol. Naquelas tardes, misturados às areias e às folhas secas dos sonhos, desconhecedores do mundo e da fugacidade das coisas, os meninos achavam-se ao acaso da eternidade, na sua condição de meninos a brincar com a areia do mar e seus destinos.
         Creio que foi assim que se encontraram. Sobre as ondas do mar que quebravam perto. Eles não sabiam que crescer seria perde-se para sempre daquele estado de comunhão que os unia com toda sorte de seres ainda não banidos da terra.
         Eles não sabiam (sabiam?) que o navio do tempo os levaria e que as grandes tardes que pareciam países de sol e fuga, se perderiam, num inimaginável processo de renúncias seguidas, que envolviam o sistemático exercício do esquecimento. Então, muitos anos depois, já envoltos no processo de transformar as lembranças em fatos desimportantes, reencontraram-se junto ao mesmo mar, que era a terra de suas infâncias, e agora desgarrados da eternidade, mas encharcados de rotinas, não se deram conta de como foram felizes e de quanto estavam velhos e afastados da pátria de si mesmos e de como suas mãos já não mostravam as pétalas de um grande Deus solar, que um dia os guiara.

               
Do livro de Francisco Orban, Leilão de acasos, (editora Garamond 

Mero Remador

Mero remador








Quisera eu
que sou um mero remador
ter o poder de enfeitiçar
as palavras
Elas sim me chegam
do nada
e se refazem plenas
na palma
do poema

Não transmuto
as palavras
desato-as
de suas ciladas

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Precário destino

Há muito que o mar me trouxe
como pele suas algas
Os ventos batem afoitos
nos cascalhos do meu rosto
Movido por um deus mudo
sigo atento pelas dunas
do areal que ficou
do que um dia foi só água
Há muito que o mar deixou-me
como saga seus navios
e suas escunas brancas
com as tarrafas da esperança
Das coisas do mar e do mundo
eu sou tecelão e causa
catando búzios do mar
como acordes espalhados
neste areal de silêncio
onde estrelas fazem
pausas

quarta-feira, 7 de junho de 2017

REDE



Tecer o tempo

tecer os versos fora desses

elementos

Tecer a cidade

tecer a REDE

                         Francisco Orban

 

sábado, 27 de maio de 2017

Extinção




E se as palavras forem apenas signos
e nossas vidas ventos provisórios?
E se os móveis dos sentidos
não tiverem mais sentido
e não couberem na sala do mundo?
E se os barcos do amor
adernarem em rios apagados
e o sorriso da mulher amada for apenas
um relâmpago
e  se árvores crestadas e secas povoarem o planeta?
E se o branqueamento dos corais
for para sempre?
E se a extinção for para sempre?
Então não ficará o registro de que amamos
e de que aqui estivemos como humanos


           Do livro "Estaleiros de vento" de Francisco Orban

sábado, 6 de maio de 2017

Antigos canaviais


Porque cai a tarde
e meu coração arde de desejo
fogueiras que sustentam meu peito
paixão e fé no improvável

Porque cai a noite
e a noite depura meu sonho
um homem só na cidade
talhado por antigos canaviais

Porque sou um homem do mundo
um viajante da espera
porque cai a noite nas águas
exiladas da terra









Navios perdidos






Só agora me dou conta
os  barcos do tempo passavam
o tempo  passava em braçadas
com seus navios perdidos

Só agora me dou conta
só agora a mim me dou

sábado, 29 de abril de 2017

Na pele das ruas



Sim era verão na pele
das ruas
as flores cresciam 
entre a floração das horas
Um trem cego seguia a lua
e eu namorava a alma
das palavras plenas

domingo, 16 de abril de 2017

Mares do coração






A poeira do mar
é o que fica
nesta febre
em que se recostam
brisas
Como a vertigem
que segue
as vidas dos
pescadores
de palavras
que ecoam
dos mares
do coração
Como as verdades
que movem
suas jangadas
de ventos
que tangem
como versos
a borda
da imensidão



terça-feira, 11 de abril de 2017

Biografia literária

O escritor Francisco Orban é poeta, jornalista e Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Autor dos livros Sobrado das Horas (Taurus-Timbre, 1990) prefaciado por Antonio Houaiss, e de Cesto das Canções com Pássaros (Leviatã, 1994). Publicou em 2001, o livro Recomendações aos sonhadores, prêmio Mar Absoluto -Cecília Meireles, concedido pela União Brasileira de Escritores. Dois anos depois, recebe o Prêmio Walmir Ayala,(UBE) por seu livro, Estaleiros de Vento, e publica em 2004 a fábula infanto-juvenil O Cavalinho de Água, adotada pelo Programa Nacional do Livro Didático-SP Seu penúltimo livro, com o título de Os Anzóis da noite, é lançado em 2006 pela editora Booklink, ano em que, seu livro Estaleiros de Vento,(editora Orobó), torna-se um dos finalistas do prêmio Jabuti. O poeta lançou em dezembro de 2008, seu novo livro Terraço das estações, e publica agora pela editora Kazuá, sua obra reunida com o título de "No País dos estaleiros". Sua poesia tem sido elogiada por Geraldo Carneiro, Antonio Carlos Secchin, Alexei Bueno e André Seffrin: Francisco Orban -e-mail   francisco.orb@oi.com.br

Inventários




Entre as muitas vidas
que trago
só uma pertence
a mim.
As outras são inventários
de países inventados
de onde voltei
saciado
com os olhos
descansados
de horizontes
sem fim

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Movimentos de vento








Atada palavra 
exilada em seu muro de silêncio
Como tirá-la de seu calcário destino
onde a noite em si embutida
não lhe elabora um sentido?

Como trazê-la para a luz
dos acontecimentos
para que os seus movimentos de vento
aqueçam a alma do mundo?

terça-feira, 4 de abril de 2017

O poema de água

             

Não que fosse do mar
a tez da tua pele
Os mapas para te achar
perderam-se pelas estradas
não as reais pedra ou água
ou das almas velejadas

O mapa para te achar
perdeu-se nessas ruelas
na argila do teu silêncio
distinto do oceano
e tudo o que vivemos


                   

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Mármore da palavra



No mármore
da  palavra
procuro a sinfonia
que me escapa
como essa noite
finda
da qual só ficou
a casca
onde se gera um poema
que ninguém abarca
Um relâmpago
do qual só se guarda
o espanto

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Poema de areia

Vejo em teu rosto
uma integridade tão bela
que a mim me pergunto
se não o guardarei para sempre
pelas estações da terra

Queria beijar-te
andar junto contigo
correr pelo corredor da noite
E contar-te que fui um menino
de vento
e que já te amava
mesmo antes de amar os navios
já te amava, quando tudo ainda
era o perfume da possibilidade
e a areia do amor
escorria por nossas mãos
nas tardes abertas
pelo sentimento de saber
que o amor estava ao nosso alcance
como os navios,a poesia e os carnavais

O que aconteceu
me pergunto?
E mudo sigo pela cidade
com a foto do teu rosto
no coração,

Um tempo sem fim
para viver sem saber
o que a febre do nosso amor
nos traria
com sua leveza
seu estado de comunhão
e alegria

Pergunto agora aos veleiros
Por que te aceno em vão, pelo mundo
E por que a mim couberam as mãos
dos que esperaram tudo?
e novamente me vejo
diante de teu rosto
de uma integridade tão bela
que meu amor te seguirá para sempre
pelas estações da terra
Como um dia, a mim seguiram
Os navios, a poesia e os carnavais

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Redes de vento

As palavras pelo mundo
eram puro movimento
A cada momento as buscava
com minhas redes de vento
A cada instante partiam
como   pássaros ao nada
mas para mim retornavam
num movimento crescente
Voltavam como cardumes
ou mesmo  como matilhas
de coisas a serem ditas
Pousavam sempre inocentes
na noite feita de águas
com seus lumes e semblantes
no colo da madrugada

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Precário destino












Há muito que o mar me trouxe
como pele suas algas
Os ventos batem afoitos
nos cascalhos do meu rosto
Movido por um deus mudo
sigo atento pelas dunas
do areal que ficou
do que um dia foi só água
Há muito que o mar deixou-me
como saga seus navios
e suas escunas brancas
com as tarrafas da esperança
Das coisas do mar e do mundo
eu sou tecelão e causa
catando búzios do mar
como acordes espalhados
neste areal de silêncio
onde estrelas fazem
pausas

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Realejo


Cada pessoa guardará
desta noite
Um bilhete com a música
de um realejo
Mas nada se sabe
se o bilhete é a senha
de um sonho
ou se esta noite
é o grande estuário
de um plano oculto
a que chamamos
Mundo

                  

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Veleiros de vento



Se do mar nada voltar
resta a palavra aberta
uma posta onde escrevo
seus grandes enredos de água

Se seu chão não estornar

os búzios em que me embebo
fica a sinfonia líquida
e as dunas dos seus segredos

Se seu continente azul
não comportar meus poemas
ficam os veleiros de vento
em que velejei seus
momentos

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Jornada



                                                      

Por ter a imensidão como jornada
mas não as mãos para abarcá-la
abstive-me de ser seu remador
no barco adernado dos acasos

Por ter a imensidão como empreitada
mas não os arreios para lhe dar
prumo
abstive-me de ser seu navegador

Agora sigo mudo
com uma velha mochila abarrotada
de claridades do mundo                                                

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Redes de vento





Trabalhar o mar
trabalhar as mãos talhadas pelo tempo
com elas esculpo signos
tenazmente pela madrugada

Com elas movo moinhos
que me movem por países de silêncio
onde espreito as palavras
com minhas redes de vento

Esta é a função que exerço
semear na pátria das falas

Esta é a função que entendo
noite a dentro com as palavras
por estações de vocábulos
e calendários de águas

         







             

-



Poema para o pai









Pai
o que faltou de ti
para abarcar
sobrou de mar
e pescarias
ao luar
O que faltou de ti
para compreender
sobrou em mim
para te reescrever
O que em ti faltou
para me perder
sobrou em mim
para te achar
Agora te levo
como um menino
pelas dunas
do entardecer
e me perguntas
se sou teu pai
e me indago
se és meu filho

                  Do livro "No País dos estaleiros" de Francisco Orban
´











Calcários



Calcária noite
feita de costados
Deste lado do tempo
vejo
um rio com seus barcos
alquebrados
passar pelo mundo ao acaso
E deste rio sou a permanência
quando traz aos meus olhos seus cansaços:
os seus pomares de águas
os seus haras de silêncio
onde semeio sempre
as palavras de que me sirvo

País azul

De noite durmo com
as canções 
da infância 
e  descanso em  seu porto
abandonado
Se estou nela
e já longe apartados
são  apenas contingências
do passado
habito ainda em seu  
país azul 
de embates estelares
trazidos  ao
longo do tempo

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Só o deserto






Só o deserto
meu amor
sabe do meu amor
por você
nem a cidade
com seus bichos
pousados
nem a decisão
de sonhar
ou morrer

Só o mar
com seu tremor
diário
atrelado à voz
dos que sonham
e os peixes
com as presas
do luar
sabem




O poema de amor






Muitos poetas te amaram
mas eu te amei muito mais
porque estavas
no coração selvagem das estações
do mundo
e as amarras que nos apartavam
sob o teu olhar desatavam-se
e tudo era o nascimento
da encantação

Muitos outros te amaram
mas eu te amei com meu amor sereno
e pousei uma flor
na palma da tua mão
E plantei um beijo no teu sorriso
e tu cobriste de doçura com os teus gemidos
o que era o início do mundo

Muitos te amaram
mas só eu segui contigo o caminho das águas
quando meu amor louco ressoava
e fazia debandar os navios


 Sol das esperanças
mar dos horizontes amarrotados de barcos
Aqui estou assolado pelas multidões de dias
e dos caminhos que encontrei pelo mundo

Ouça meu amor este poema
agora que o crepúsculo nos assedia
aceno para ti como sempre acenei

Desígnio do azul








Meu olhar de pescador
desconhece o vento
E sob o desígnio do azul
escrevo um verso
Se estou perto de Deus
não sei ao certo
Aqui os flamingos
desconhecem  o tempo
e planam  sobre o mundo
a céu aberto

Eu voo sob os braços do eterno
em mim tão perto
e obscuro

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Imensidão





Não é necessário
do mar guardar
a imensidão azul
Basta prever
o que dele exala
os búzios que devolve
com suas músicas náufragas
e as jangadas brancas
que desfralda
ao longe
bandeiras
de ninguém

Procuração do mar




Artesão dos signos
procurador do mar
O ar e seus inquéritos
fraudados
A vida e suas alianças
frágeis

Papel do mar








Que o mar cumpra seu papel
com seus búzios que a todo momento
me chegam com seus  sonetos de vento
e que levo aos ouvidos desatentos
Que o mar cumpra seu cordel
ao trazer-me o sentido do infinito
seu país azul amarrotado



terça-feira, 9 de agosto de 2016

Paraty





Naquele momento, olhando o mar com seu dorso amarrotado pelo vento, restabeleci novamente meu diálogo com Paraty e seu passado. A cidade fora então um lugarejo perdido de onde escoara o ouro. Suas igrejas loteadas dividiam os habitantes: uma para os senhores,outra para os mulheres brancas, esta para os mestiços e negros escravos
Num mundo injusto e segregado, a cidade era assim repleta de insetos e dejetos atirados nas ruas, sobre as calçadas de pedras trazidas de Portugal pelos navios. Pedras que não foram tantas quanto as pepitas de ouro extraídas pelos negros expatriados, que ,aqui, como escravos, também foram de suas vidas arrancados.
Assim chegamos do futuro a esta cidade pousada no azul como uma nave de luz no chão do mundo, toda feita de leveza pelos poetas que a restauraram e a reinventaram. Eles que foram os que possibilitaram a sua permanência, como se encontra, assim como seus fundadores que um dia conspiraram para que ela existisse assim como uma pétala. E desta maneira a vemos, com os nossos olhos transmutados pelo hoje, na ilusão de que Paraty de alguma forma tenha sido sempre esta que agora vivenciamos. É que, naquele mundo brutal, suas paredes já foram erguidas como são e talvez ela existisse assim, como veio a se tornar, posto que embrionariamente já existia no coração dos homens.




















sexta-feira, 15 de julho de 2016

Palavra






Que cais sufraga esta palavra
tão atônita em sua enseada?
Palavra minha única estrada



              Do livro:  No país dos estaleiros

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Lua na noite

 Salta a lua na noite. Tudo é a imensidão do agora. Aqui estou no epicentro de um rio. Mas a mão de uma menina me busca e me leva para a calçada das horas. Em sua tez sinto a tez das águas. Ela me diz dos caminhos do mundo onde a esperança deságua. No meio da chuva estava o amor como uma granada calada.


Do livro    No país dos estaleiros

Tradução


Um homem 
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde

Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa mentir
que o resgata 
do abate

Um homem traduz 
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde

Como se sonhar
fosse só um ato
e não um difícil
encargo


Meninos





                                                      

                                                                                 

Em algum lugar da memória esta lembrança ficou retida. Um cinturão de água cingia os sonhos dos meninos, que eram mínimos, mas traziam consigo a companhia do sol. Naquelas tardes, misturados às areias e às folhas secas dos sonhos, desconhecedores do mundo e da fugacidade das coisas, os meninos achavam-se ao acaso da eternidade, na sua condição de meninos a brincar com a areia do mar e seus destinos.
         Creio que foi assim que se encontraram. Sobre as ondas do mar que quebravam perto. Eles não sabiam que crescer seria perde-se para sempre daquele estado de comunhão que os unia com toda sorte de seres ainda não banidos da terra.
         Eles não sabiam (sabiam?) que o navio do tempo os levaria e que as grandes tardes que pareciam países de sol e fuga, se perderiam, num inimaginável processo de renúncias seguidas, que envolviam o sistemático exercício do esquecimento. Então, muitos anos depois, já envoltos no processo de transformar as lembranças em fatos desimportantes, reencontraram-se junto ao mesmo mar, que era a terra de suas infâncias, e agora desgarrados da eternidade, mas encharcados de rotinas, não se deram conta de como foram felizes e de quanto estavam velhos e afastados da pátria de si mesmos e de como suas mãos já não mostravam as pétalas de um grande Deus solar, que um dia os guiara.

               
Do livro de Francisco Orban, Leilão de acasos, (editora Garamond 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Mero remador






Quisera eu
que sou um mero remador
ter o poder de enfeitiçar
as palavras
Elas sim me chegam
do nada
e se refazem plenas
na palma
do poema

Não refaço
as palavras
desato-as
de suas ciladas






terça-feira, 5 de julho de 2016

Canoas



         As canoas que um dia nos levaram hoje são esses veleiros, que do mar alto nos assistem em terra, sem que saibamos de suas pretensões. 
         Como os veleiros, amei um dia uma mulher, quase menina, que  de mãos dadas comigo resolveu andar pelos garimpos silenciosos do coração. E em se tratando de corações de  adolescentes, quanta dor rege esses seres feitos de transição e fúria, pois somos, nessa idade, mamíferos desgarrados, provisoriamente salvos do caminhar da manada (para onde?) se não para a sua própria devastação.
         Posso assegurar que ela me amou, e que juntos singramos uma linha no horizonte, deixando nossa marca entre as flores de um país que nunca aconteceu. Pelo chão de areia e seguindo os costados do mar, pisamos os búzios do esquecimento que o mar expelia, também em sua viagem pontuada de veleiros. O que ficou dessas tardes, que eram tabuleiros de sol e ventania? O que ficou de seu corpo belo, mais belo ainda pelas paisagens que construí e visitei? Não fosse o gosto de seu hálito, nada teria retido. Pertence às cinzas de um carnaval suprimido esta fábula que virou encantação e por isso dói neste ônibus das cinco, onde cumpro o roteiro dos mesmos caminhos. Como os veleiros, alguns amores deixaram descuidadamente que o vento do tempo os abatesse, com sua crueldade e seu crestar de horas. Mas não foi esse o caso. Como os veleiros, deixamos distraidamente que o mundo nos tangesse para longe, quando para longe virou a única rota de nossos destinos. E o que guardo dela são seus grandes olhos, perplexos, infinitos.











Festa dos ciganos




Marina
andei léguas de falas
para chegar a ti

Eu era escafandrista
das vidas e das almas
andava na São João
com medo de frio e bala

Tinha feito uma viagem
ao Nordeste e não deu certo
Tinha ido ao Polo Norte
vender gelo à turista

Agora estava de volta
cansado hipocondríaco
E tu estavas igual
com teu silêncio de seda
e tuas saias erguidas
na festa dos ciganos



terça-feira, 28 de junho de 2016

Estuário



Esta cidade aderna
sobre o mundo
e seu parapeito
Coberta com a cal
das horas
e dos solares dias

Seu enredo
assim se apresenta
-um milharal de luzes
na noite-

Frente ao mar
mas não a afrontá-lo
e sim como se dele fosse
o estuário

Mármore da palavra



No mármore
da  palavra
procuro a sinfonia
que me escapa
como essa noite
finda
da qual só ficou
a casca
onde se gera um poema
que ninguém abarca
Um relâmpago
do qual só se guarda
o espanto

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ônibus 614



A noite por dentro das horas e do amor
e os rostos deitados no chão do mundo
Assim caminhávamos
Milhões de cigarras na pele das calçadas
e as pedras suadas
e o cheiro de rio mata e silêncio
e eu sem saber navegar
e sem sabermos do mar
e o ônibus 614 levando os meninos
com seus destinos de vento

Nada mais se sabe desta terra
nem do rosto dos seus encantados
estacionados nas madrugadas 
de  um mundo sem fuso horário


Éramos filhos da terra
e havia os heróis e não heróis
os balões que subiam nas noites acesas
e seus caçadores pela madrugada
e o espírito da mata sobre os sonhadores
e os primeiros amores
e os dias com seus mares abertos
onde o ônibus 614 passava
antes de embrenhar-se no nada
e nos amarrar para sempre
nas tramas da madrugada


Um rio atravessava a cidade
sob a chuva que se estendeu por cem horas
entre pedras caminhões estrelas mortas
tudo desceu pelo dedo das horas
naquela vida assombrada
em que para sobreviver era preciso nascer
 em que para nascer era preciso descer
no ônibus 614
em um dia qualquer de fevereiro
no ano de 1968
em um mundo sem palavras
em pleno estado de comunhão

Não estava escrito nos braços
dos navegantes
nem no navio que nos fez sair
do dia comum
onde nos vimos em silêncio
recostados nos mesmos  bares e verbos
imunes ao tempo e seu grande cenário
enquanto o ônibus 614
passava
levando os meninos e meninas
com seus destinos de vento





Tramo com o dia um poema
que se torne passagem
Tramo com os pescadores
uma canção para ninar o mundo
Enquanto o mundo não se nina
eu nino meu filho que me afaga
esperando o ônibus 614
que sempre me acena com a sua viagem impossível
antes de capotar nas ruas reais do dia

O ônibus 614 desceu a rua Rocha Miranda
e viu Cristina Maria feita de adolescência
e passou por dentro do tempo
entre as árvores desencontradas da esperança
pela experiência de ser guiado por uma estrela
que também por nós se guiava
pelos corredores azuis da noite
com o mapa do mar no bolso
com o mapa das águas no coração
Mínimos meninos
pisando nos trilhos de um trem que ia da alegria
a Itaguaí
mas que foi desativado
como foram oceanos
bichos palavras amores amigos
lutas violões ventanias